O Pix completou cinco anos em 10 de agosto movimentando R$ 35,36 trilhões só em 2025, novo recorde. Ao lado da comemoração, o Banco Central anunciou que trabalha para padronizar o “alerta de golpe” nas transferências. Veja os golpes mais comuns hoje e como se proteger na prática.
O Pix, sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central lançado em novembro de 2020, chegou aos cinco anos de operação batendo recorde: em 2025, movimentou R$ 35,36 trilhões, um crescimento de 33,6% sobre 2024. Foram quase 80 bilhões de transações no ano, envolvendo 148 milhões de pessoas — cerca de 86% da população adulta brasileira — e 12,8 milhões de empresas. Hoje existem mais de 920 milhões de chaves Pix cadastradas no país.
Para colocar esses números em perspectiva: em pouco mais de cinco anos, o Pix se tornou o meio de pagamento mais usado no Brasil, superando dinheiro em espécie, cartão e boleto em volume de transações do dia a dia. Essa adoção em massa trouxe praticidade real para quem paga e recebe, mas também virou alvo constante de golpistas, que encontraram na velocidade e na irreversibilidade do sistema o ambiente ideal para aplicar fraudes.
O que o Banco Central anunciou junto com a comemoração
Junto com os números de crescimento, o Banco Central divulgou a segunda edição do Relatório de Gestão do Pix 2023-2025, trazendo a agenda de evolução do sistema para os próximos anos. Entre os destaques de segurança, o documento revela que o BC está trabalhando para padronizar o chamado “alerta de golpe” — um recurso já usado por algumas instituições financeiras para avisar o cliente, no momento da transação, quando os critérios internos do banco identificam sinais de possível fraude.
Segundo o próprio relatório, o Banco Central discute com o mercado, no âmbito do Fórum Pix, como tornar essa padronização obrigatória, definindo critérios mínimos para a emissão desses alertas e a forma como devem ser exibidos ao cliente. O documento não define um prazo específico para a medida entrar em vigor — algumas ações estão em desenvolvimento, outras ainda em fase de discussão. Entre as demais iniciativas citadas no relatório estão o desenvolvimento de um indicador de probabilidade de fraude em tempo real, aprimoramentos no próprio mecanismo de devolução e uma participação mais ativa do Banco Central na gestão das chaves Pix, hoje sob responsabilidade exclusiva das instituições financeiras.
O uso indevido do campo de mensagem também está no radar
Um problema que cresceu junto com o Pix: o campo de descrição da transação, pensado para anotações objetivas sobre o pagamento, virou canal de ofensas e ameaças. O Banco Central identificou que esse campo tem sido usado, em algumas situações, para mensagens intimidatórias, frequentemente associadas a transferências de valor irrisório — como um centavo enviado só para carregar uma mensagem ofensiva. O órgão estuda, em conjunto com as instituições financeiras, medidas para impedir esse uso indevido da ferramenta.
1. O golpe da falsa central de atendimento
O golpista liga se passando por funcionário do banco, usando tecnologia de spoofing para que o número oficial da instituição apareça no visor do celular da vítima. A ligação relata uma “compra suspeita” para gerar pânico, confirma dados pessoais já vazados na internet para ganhar credibilidade, e então pede que a vítima instale um aplicativo de “proteção” ou transfira o saldo para uma “conta segura”. Segundo a Serasa, esse golpe está entre os mais aplicados contra clientes bancários no país. Bancos nunca pedem esse tipo de transferência por telefone — essa é a regra mais simples para identificar o golpe na hora.
2. Boleto falso
Nesse golpe, o código de barras ou a chave Pix de um boleto legítimo é adulterada antes de chegar até a vítima — por e-mail interceptado, por WhatsApp ou até por um site falso que imita a cobrança de uma loja ou prestador de serviço real. O pagamento parece normal, mas o dinheiro vai direto para a conta do golpista. Conferir os dados do beneficiário exibidos na tela de confirmação do Pix, antes de finalizar qualquer pagamento, é o passo que evita cair nesse tipo de fraude.
Uma variação comum desse golpe acontece em vendas online: o golpista se passa por vendedor num anúncio de marketplace ou rede social, negocia por mensagem privada, e envia uma chave Pix ou QR code fraudulento no momento do pagamento, sumindo logo depois de receber o valor. Comprar apenas dentro das plataformas oficiais de venda, usando o sistema de pagamento protegido delas, evita cair nessa modalidade específica.
3. Clonagem de WhatsApp
O golpista convence a vítima a compartilhar um código de verificação recebido por SMS, alegando ser de uma empresa ou banco confirmando um cadastro. Esse código é justamente o que permite clonar o WhatsApp. Uma vez com acesso à conta, o criminoso se passa pela vítima e pede dinheiro emprestado, com urgência, para os contatos mais próximos — familiares e amigos, que confiam por reconhecer o nome e a foto do perfil.
Existe também uma variação sem clonagem real: o golpista copia a foto de perfil pública de alguém e cria um número novo, se passando pela pessoa sem nunca ter acesso à conta original. Por isso, mesmo quando o número parece “diferente do de sempre”, vale sempre desconfiar e confirmar por outro canal antes de qualquer transferência.
Como saber se estou falando com a pessoa de verdade, ou com um golpista?
A regra mais segura é sempre ligar por voz para confirmar, usando o número que você já tinha salvo antes, nunca um número novo enviado na própria conversa suspeita. Pedidos de dinheiro via mensagem, especialmente com urgência incomum, merecem essa confirmação extra antes de qualquer Pix. Ativar a verificação em duas etapas no próprio WhatsApp, nas configurações de conta, também dificulta bastante a clonagem, mesmo que o código de SMS seja comprometido de alguma forma.
O que fazer se você já caiu em um golpe pelo Pix
A velocidade de reação é o que mais importa: enquanto o dinheiro ainda estiver na conta do golpista, existe chance real de bloqueio. O primeiro passo é avisar o próprio banco imediatamente e acionar o Mecanismo Especial de Devolução (MED), ferramenta do Banco Central que permite contestar a transação e tentar recuperar o valor — o prazo para abrir essa contestação é de até 80 dias após a transferência. Também vale trocar as senhas do banco, do e-mail e do WhatsApp, e registrar um boletim de ocorrência, que pode ser feito online na maioria dos estados.
Guardar prints das conversas, números de telefone envolvidos, comprovantes e horários exatos da transação ajuda tanto o banco quanto a polícia a investigar o caso com mais agilidade. Se o banco não resolver a contestação de forma satisfatória, também é possível registrar reclamação no consumidor.gov.br, plataforma oficial que obriga instituições cadastradas a responder dentro de um prazo determinado. Quanto mais completa a documentação reunida logo no início, maior a chance de o processo de devolução avançar sem travar por falta de informação.
Cuidados gerais que valem para qualquer golpe via Pix
Alguns hábitos simples reduzem bastante o risco, independente do tipo específico de golpe: desconfiar de qualquer situação de urgência extrema criada por quem entra em contato, nunca informar senha ou código de verificação para ninguém — nem para “funcionários” de banco —, conferir sempre o nome do beneficiário exibido na tela antes de confirmar um Pix, e, ao receber um Pix por engano, usar exclusivamente a função de devolução dentro do próprio aplicativo do banco, nunca fazer uma transferência manual de volta para quem enviou.
Perguntas rápidas
- Uma vez confirmado, o Pix pode ser cancelado? Não. Depois de confirmada, a transação é irreversível — por isso a conferência dos dados antes de confirmar é tão importante.
- O banco é obrigado a devolver o dinheiro de um golpe? Depende da investigação. O MED permite tentar bloquear e recuperar o valor, mas o resultado depende de cada caso e da rapidez da denúncia.
- Existe algum valor “seguro” para transferir sem verificar quem está pedindo? Não. Golpes acontecem com valores pequenos e grandes — o cuidado na verificação deve ser o mesmo, independente do valor.
- O alerta de golpe do banco impede 100% das fraudes? Não. O alerta funciona como uma camada extra de proteção, baseada em critérios de suspeita, mas não substitui a atenção do próprio usuário na hora de confirmar uma transação.
Cinco anos depois de mudar a forma como o brasileiro movimenta dinheiro no dia a dia, o Pix segue evoluindo tanto em funcionalidade quanto em segurança — mas a velocidade e a irreversibilidade que tornam o sistema tão prático são, ao mesmo tempo, o que os golpistas mais exploram. Nenhuma tecnologia de proteção substitui o hábito simples de desconfiar de urgência e conferir dados antes de confirmar.
O passo prático mais simples agora é ativar, ainda hoje, a verificação em duas etapas no seu WhatsApp e guardar o número de telefone de familiares próximos como contato salvo, para sempre confirmar por voz qualquer pedido de dinheiro que chegar por mensagem — esse único hábito já neutraliza boa parte dos golpes mais comuns em circulação.




