Escolher os produtos e concluir a compra sem registrar cada código de barras: essa é a proposta da nova loja Muffato Go, a MGO, anunciada para esta quarta-feira (21), em Curitiba. Para quem trabalha no comércio, a novidade mostra uma mudança concreta de tarefas, mas não permite concluir que o supermercado deixou de precisar de funcionários.
O Grupo Muffato informa investimento de R$ 10 milhões na unidade do Centro Cívico. A tecnologia combina inteligência artificial (IA), câmeras e sensores para montar a cesta de compras automaticamente. O sistema também pode avisar a equipe quando uma mercadoria está acabando na prateleira.
O ponto central para o trabalhador está nessa diferença: identificar uma venda ou detectar uma falta pode ser automatizado. Repor o produto, atender uma dúvida e lidar com uma situação fora do previsto continuam sendo necessidades da operação.
Ler resumo +
O acontecimento: o Muffato anunciou uma nova unidade MGO em Curitiba, com inauguração prevista para 21 de outubro.
O que muda: câmeras e sensores registram os produtos escolhidos, dispensando a leitura individual dos códigos de barras.
Onde entra a equipe: a operação continua envolvendo reposição, atendimento e tratamento de problemas.
O que isso muda na sua vida: para quem trabalha no varejo, o caso ajuda a identificar quais etapas podem mudar e que preparação perguntar à empresa.
Limite: não há dados apurados que permitam atribuir demissões à nova unidade.
O cliente não precisa escanear cada produto
Segundo a reportagem da EXAME publicada em 20 de outubro, a solução foi desenvolvida com a empresa portuguesa Sensei. Ao retirar um item, o consumidor tem a escolha associada a uma cesta virtual. Se devolver a mercadoria, a compra é atualizada.
É diferente do autoatendimento convencional, conhecido como self-checkout. Nele, o cliente costuma passar os produtos pelo leitor. Na MGO, essa etapa é feita pelo sistema.
Visão computacional é a tecnologia que permite interpretar imagens. Combinada aos sensores, ela ajuda a reconhecer a movimentação dos produtos. A nova operação também incorpora mercadorias vendidas por peso, como itens de hortifrúti e padaria.
Isso não elimina o pagamento. A divulgação prevê aplicativo ou totens na saída, nos quais o consumidor pode recuperar a cesta e pagar. A automação muda o registro das compras; não transforma a retirada de mercadorias em consumo gratuito.
Um alerta de estoque não repõe a prateleira
A cobertura do Grupo AMANHÃ informa que a tecnologia avisa a equipe sobre produtos que estão acabando. Esse recurso ajuda a entender a automação por etapas, em vez de imaginar uma profissão inteira desaparecendo de uma vez.
Detectar que falta mercadoria é uma etapa. Localizar o produto no estoque, verificar suas condições e colocá-lo na gôndola são outras. O aviso pode orientar o trabalho, mas não equivale à execução de toda a reposição.
O mesmo raciocínio vale para o atendimento. Um sistema que registra a cesta não responde, necessariamente, a toda dúvida sobre um alimento ou resolve sozinho qualquer divergência percebida pelo consumidor.
Esses são exemplos de necessidades operacionais, não uma lista de cargos anunciados pelo Muffato. As fontes consultadas não detalham a divisão de funções ou o número de profissionais da nova unidade.
Sem caixa convencional não significa sem funcionários
Automatizar uma tarefa não é o mesmo que eliminar todo o trabalho ligado a ela. A mudança pode reduzir etapas manuais e alterar responsabilidades, mas seus efeitos sobre os empregos precisam ser verificados, não presumidos.
Não há evidência apurada de demissões decorrentes dessa unidade. Também não há informação suficiente para afirmar que todos os profissionais serão realocados, receberão promoção ou terão redução de jornada.
A experiência tampouco começou agora. A Sensei registra a abertura da primeira Muffato Go em novembro de 2022. A notícia atual é a nova geração anunciada para Curitiba, e não o surgimento do primeiro teste brasileiro desse grupo.
Para a carreira, importa entender o processo que está mudando
Quem atua no varejo pode observar a novidade com perguntas próximas da própria rotina: quais registros deixariam de ser manuais? Que informação chegaria pelo sistema? Quem conferiria uma divergência ou atenderia um cliente com dificuldade?
Essas perguntas ajudam a discutir treinamento e responsabilidades com a empresa. Não significam que o trabalhador precise aprender a programar para continuar exercendo sua função.
Em outro caso já apresentado pelo Firma, a Riachuelo capacitou profissionais de diferentes áreas para criar soluções com IA. São experiências distintas: uma envolve automação na loja; a outra, formação interna para resolver problemas de trabalho.
A comparação mostra por que a preparação precisa acompanhar a aplicação concreta. Antes de pagar por um curso genérico, vale relacionar o aprendizado às tarefas da profissão, como explica o roteiro do Firma sobre escolha de qualificação a partir de competências e vagas.
O pequeno comércio pode observar sem tentar copiar
Uma unidade com investimento anunciado de R$ 10 milhões não demonstra que a mesma estrutura seja viável para uma mercearia ou loja de bairro. Faltam informações sobre manutenção, custos operacionais e retorno para fazer essa comparação.
O próximo passo possível é identificar uma dificuldade específica: erro no estoque, demora na conferência ou produto que acaba sem ninguém perceber. A pergunta deixa de ser “como ter uma loja igual?” e passa a ser “qual etapa precisa funcionar melhor no meu negócio?”.

Sebastião Neto é administrador pela UFMG, com MBA Executivo em Mercado de Capitais pelo IBMEC e especialização em M&A pelo Insper. Tem experiência em finanças, estratégia, gestão comercial, desenvolvimento de negócios e fusões e aquisições. No Firma Feed, contribui para traduzir temas de carreira, dinheiro e negócios em informações mais claras e úteis para decisões do dia a dia.



